terça-feira, agosto 5

Conto: Abate


É que tinha uma réstia de luz entrando pela janela. Meu coração pulsava fraco com essa claridade, esperando a escuridão para se libertar. Na fraca luz mirei meus olhos pelo espelho, negritude rodeada de uma gosma branca, nos lábios descascados, aquele sorriso de quem entende da malícia. Os dentes quase invisíveis na escuridão, as axilas molhadas, o suor acima no buço, o cobertor esquentando as costas, e o frio nos dedos dos pés, tudo denunciando meu medo da luz. Na cabeça os piolhos em polvorosa, brigando pelo meu sangue, ou caspa devorando-me em coceira, mas não coço, imagino seus dedos mornos sobre mim, brincando comigo no meio da noite, mordendo pra longe esse medo, de olhos fechados.

É que essa luz denuncia, lábios inferiores mordidos, língua sobre lábios secos, prelúdio de sua chegada, saliva de sua presença, angústia de sua alma. Fico já em guarda, sem calcinha, sem calça, sem meia, sem pudor, pernas abertas, frêmito no corpo todo, esperando a escuridão tocar minhas partes, preencher meus vazios expostos pela luz, meu ventre inchado, a criança mexendo, sua chegada silenciosa.

Eis que da luz não há mais réstia, o cativeiro colorido do sangue delas desaparece ao meu olhar. A noite chegou contigo, e veio arrebatadora. Posso sentir sua respiração sobre mim, além do vento com o abrir da porta. Ao longe o uivo do cão, mais perto a sirene de polícia, e cá você, pronto para mim, pronto para me satisfazer, pronto ereto.

Nessa escuridão ouço apenas o som da corrente batendo contra a parede, no ritmo do nosso amor desvairado. Mal posso conter meus suspiros, você entra em mim com força, seus trancos raivosos rivalizando com o metal. Tudo às escuras alcançamos o êxito, engolimos nosso amor dentro de nossa imensidão, o gozo escorre perna abaixo, o suor inunda minhas papilas gustativas, um clarão sinistro e o cigarro está acesso, o olho vermelho passa de boca em boca, uma dança macabra refletida no espelho.

A noite é passageira, quando do sol querendo despontar estou sozinha, rodeada de imundícies, saciada de nosso amor selvagem. Quando da manhã meu coração pulsando fraco, percebo na parede, fruto e feto de nosso amor, os ossinhos pendurados, mortos de fome talvez, mas ainda mortos. Conto seus corpos, seis, sete, vinte? Quem sabe, estão aí me encarando, evito seus olhos e questionamentos, busco em meu ventre uma vida pulsante, ainda vive. A luz faz-me ver, com olhos escancarados, o horror ao qual estou acorrentada, uma parede colorida em sangue arterial, um teto decorado com ossos infantis, um espelho mais cruel que a realidade.


Fecho os olhos com força. Buscando a escuridão atrás das pálpebras, mas a negritude é colorida, luzes malditas pintam meus olhos, piscam sobre minha desgraça. Falta o ar nessa hora, chorar é para os fracos. Anseio pelo fim dessa luz abrasadora, a criança muda de posição, eu mudo de lado no chão duro. Um gole de urina podre, um pedaço de fungo e o café da manhã vai me sustentar até o banquete da noite. Os ossos tremem de medo, medo pensam eles, desejo já sabe o cérebro, apenas desejo. Que me venham às entranhas o carneiro pro abate.

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