quarta-feira, outubro 15

Passional

E a gente brigou por uma coisa tão boba. Nem lembro mais o motivo. Lembro sim, de tê-la deixado sozinha na mesa do bar. Sozinha. Nunca mais voltei a ver seus olhos escuros nem seus dentes levemente tortos. Nunca mais ouvi aquele riso de felicidade nem suas broncas passageiras. Deixei a mulher sozinha e sozinho estou eu hoje. Naqueles dias, quando eu a tinha, fazíamos castelos no ar e os desmanchávamos com as linhas tortas de nossas escritas. Eu recitava poesias de amor e ela regurgitava tudo em contos de terror. Naquele dia da briga, eu disse à polícia, brigamos e eu a deixei na mesa do bar. Notei que tinha um cara de olho nela, talvez ele possa saber de alguma coisa? Como ele era? Não poderia me lembrar exatamente, alto, forte, gordo até, bem diferente da minha magreza loira. Não, o garçom não lembrava de nada, mas eles nunca lembram sem você molhar a mão deles. Naquela noite, eu fui dormir com as unhas cheias de sangue. Tive o infortúnio de atropelar um cachorro. Botei ele na traseira do carro, mas não levei no veterinário, pois não havia nenhum aberto àquela hora. A polícia vem dizer que o sangue é dela, mas isso é impossível, eu a deixei, sozinha, na mesa do bar. Aquela vaca, deve ter feito isso para me incriminar. Deve ter espalhado sangue pelo meu carro, e saído em uma longa viajem, nessa hora, deve estar rindo às largas enquanto eu estou aqui, encarcerado e acusado de crime. Mas eu não cometi nenhum crime, a deixei fofa e bela, sentada na mesa do bar. Vadia!

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