quarta-feira, novembro 20

Conto: Narradora

Então, outro conto. Divirta-se!

Batia com concentração o teclado do computador. Busca: inspiração. Buscava o melhor de si para jogar as palavras, mal olhava as mãos, olhos retos e diretos na tela. Queria a obra prima. E o leitor pergunta, que há agora? Não sei, não posso dizer mais do que o momento. Como narradora observadora e paciente, vejo o aqui e agora e sinto os sentimentos. Nesse instante, seus dedos se movem com tanta velocidade que me dá vertigem, fecho os olhos por alguns momentos, tentando me recuperar, esmago um mosquito com as mãos (eu sei, sou habilidosa nesse quesito) e quando desloco minha atenção para ela, ela continua feliz. Aliás, agora chora de felicidade. Possivelmente um pouco desesperada, mas a alegria toma a cada um de forma diferente.
Devo confessar que estou cansada de observar e não participar. Que graça há em uma pessoa que só escreve? Não há ação, aventura, emoção. Talvez eu devesse inventar alguma coisa, mas não posso, seria incorrer na mentira, e de mentira eu não gosto. Minha mãe costumava dizer que... Oh, ela levantou da cadeira, que emocionante, vamos dar glórias, um pouco de movimento, eh? Mas retornemos à minha mãe, mulher interessantíssima, sempre me dizia que assim que eu proferisse uma única mentira, arrancava todos os meus dentes, um a um, com alicates. Nunca menti desde que ela arrancou o rabo do gato para me ensinar uma lição. O melhor foi ver o gatinho pulando desequilibrado. Ai ai, quase choro de rir ao lembrar de mamãe. 
Agora ela está indo ao banheiro, ah, não, ali não e o banheiro, é a lavanderia. Cordas, legal, que será que ela vai fazer com cordas? Rapel, é claro. Que burra que eu sou. Mas veja só, já voltou pro computador. E essa alegria que não passa. Vai assoar esse nariz mulher! Tenho vontade de gritar, puxa vida, que frustrante ficar observando a vida alheia sem poder interferir. Eu hein? Chatice.
Bem, o que eu estava falando mesmo? Memória fraca. Esses dias o médico receitou uns remédios aí. Tomei dois ou três e joguei o resto fora. Imagina, eu, na minha idade, tomando remédio. Nada, estou na flor da idade, pronta pra ser arrebatada em jovens braços finos. Mas bem, que a mulamba está fazendo agora? Só desorganizando as coisas, arrastando cadeiras no meio da sala. Nunca vi isso, praticar rapel no meio da sala. Vai descer por onde, Exú? 
Oh, não, espere um minuto. Isso está parecendo uma daquelas coisas que supostamente devemos "evitar", como se chama mesmo? Ah, lembrei, suicídio. Oh merda, espere, não enfie o pescoço aí. Ai, deve ter doído. Haha, ficou se debatendo é? Quem mandou pular? Ela parecia tão feliz agora mesmo, estava inclusive chorando. 
Ai nossa, vamos lá querida, chegue mais perto, deixe-me tirar essa corda daí. Melhor? Um pouco? Legal. Céu? Que céu? Não não, nada disso. Aqui é o Departamento de Vigilância, venha comigo, vou levar você ao seu novo posto de trabalho. Ih, você vai adorar o pessoal, todo mundo de bem com a vida...


Gostou (ou não), deixe uma lembrança em forma de letras que formam palavras que formam frases que me deixam feliz. ;)

Um comentário:

  1. Adorei! O melhor foi a parte do "Departamento de vigilância" hahahahaha morri de rir! :-D

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